Aluno da zona rural de Itapecerica bolsista em Stanford, nos EUA, volta ao Brasil e fala sobre experiência no exterior

Por Gabriela Pereira - Especial para o Jornal na Net | 26/07/2019

O adolescente Matheus Lopes Hengles, neto de Gregório Carlos Hengles, um dos emancipadores de Itapecerica da Serra, com apenas 16 anos carrega uma história emocionante para contar. Morador do Potuverá, zona rural da cidade, o aluno da Escola Estatual Salvador Leone conseguiu ganhar uma bolsa de estudos no curso de sociologia em Stanford, nos Estados Unidos, e ficou três semanas em solo norte-americano. Agora, de volta ao Brasil, o adolescente conta como foi a experiência escolar em uma universidade fora do país.

O caminho para Matheus ir até Stanford, na verdade, não foi fácil. Agraciado com a bolsa, teve que correr atrás de meios para arcar com o passaporte o visto e a passagem, que não eram pagos pela instituição. O adolescente precisava arrecadar cerca de 5 mil reais em torno de dois meses para conseguir bancar as despesas e realizar seu sonho de estudar em uma universidade renomada na área de sociologia. Para isso, o jovem decidiu criar uma vaquinha e a arrecadação surpreendeu. Matheus conseguiu mais de 6 mil reais em doações e embarcou no dia 24 de junho.

À época, durante o processo de arrecadação, a reportagem do Jornal Na Net conversou com o jovem, que disse que Stanford era um sonho antigo. “A universidade possui metodologias de ensino incríveis e terei contato com uma enorme diversidade cultural", relatou. O adolescente, que sempre estudou em escola público, também relatou acreditar na educação, pois ela “é a ferramenta que dispomos para gerar mudanças no mundo”.

Em Stanford, na Califórnia, Matheus conta que teve um pouco de dificuldade para se adaptar na no começo por conta inglês. Ele, conforme explicou, aprendeu tudo o que sabe sobre o idioma estudando sozinho em casa. “Eu não tenho curso de inglês, então fui pelo conhecimento que obtive. Na primeira semana foi muito complicado porque eu tive que me esforçar muito para entender as aulas e depois eu sempre pesquisava o tem à noite. Já na segunda semana, eu consegui me comunicar melhor”, relatou.

“A minha rotina era muito lotada. Tínhamos que ler diversos artigos fazer atividades esportivas e coisas do tipo”, explicou Matheus sobre as semanas que viveu no curso, que também exigia um trabalho final. “Eu tive que fazer uma pesquisa com métodos sociológicos em Palo Alto e meu tema foi: The relation of social classes and the capitalismo in action – A relação das classes e o capitalismo em ação”, disse o jovem ao relatar que “ápice do curso todo foi quando teve que explicar o trabalho”.

Para fazer a pesquisa, foi necessário sair do Campus e ir para a cidade para fazer anotações. Depois que o tema foi decidido, as análises foram colocadas em posters impressos para serem apresentados aos alunos de sociologia. Matheus, embora muito inseguro, “se jogou” e explicou os pontos analisados. “Eu recebi meus comentários em papéis sem o nome das pessoas [...] todos elogiaram minha apresentação”. O trabalho do Itapecericano evidenciou como o capitalismo atua no relacionamento de classes em diversos ambientes.

Além da experiência acadêmica, Matheus também levará na bagagem a troca cultural com pessoas de diversas partes do mundo ao longo dos 25 dias. Ele conheceu alunos da Espanha, Índia, Turquia, Alemanha e até brasileiros, mas um vínculo estabelecido que ele considerou ser chamado de amizade acontece entre ele e os chineses. “Olha, eu sinceramente tenho alguma coisa com chinês”, disse ele risonho. “Eu fiz muita amizade com chineses”, pontou.

O adolescente, ao considerar que mora em uma zona carente de Itapecerica, contou ainda que conseguiu furar um “bloqueio social econômico”. “Com certeza é mais difícil alcançar um objetivo quando não se está em uma classe privilegiada”, relatou ele. “Mas existe muitas pessoas sensatas, que sabem que vai ser um jovem carente, que viveu as mazelas da sociedade, que vai mudar o mundo para um lugar melhor”, disse ele em tom encorajador e esperançoso.

Para ele, “a experiência foi incrível” e serviu para “abrir ainda mais a sua mente”. Agora, de volta ao país, ele idealiza projetos de impacto social e pensa em se jogar em novas oportunidades além das quais já vivenciou. Além de fazer o curso de sociologia fora do país, ele já participou de projetos com temas políticos, de debates de conscientização e já ministrou palestras na escola em que estuda sobre intolerância religiosa e a importância do respeito com o diferente. Ele também é voluntário na Engajamundo, “ONG que visa levar mudanças positivas para a sociedade".

 

Comentários