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Vidas perdidas e sonhos desfeitos pela morte no Trânsito

Por Sandra Pereira | 9/06/2010

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Enterro das vítimas de acidente fatal no trânsito: momentos de dor e desespero que poderiam ser evitados

Faltava só 10 dias para o casamento. A felicidade dos noivos Daiane e Sidney, moradores de Taboão da Serra, só não era maior do que a correria com preparativos da festa. Um instante, poucos segundos, transformaram o sonho do casamento em dor e saudade. Sidney morreu em um acidente na Régis Bittencourt na altura do quilometro 273, sentido São Paulo. Os sonhos de felicidade do jovem casal morreram junto com ele. Aos 26 anos de idade o noivo que em poucos dias ganharia uma nova família entrou para a estatística fria do número de acidentes com mortes na BR 116.

Naquele dia cruel, em dezembro de 2009, ele não ligou para a noiva, queria chegar mais cedo para falar com ela pessoalmente. Ela sentiu falta da ligação habitual, o peito dela apertou. Uma sensação ruim, talvez pressentimento, dizia que alguma coisa não estava bem. Menos de uma hora depois o telefone tocou e um socorrista informou o acidente fatal. Aquela ligação mudou a vida dela pra sempre. Os instantes que se seguiram foi de desespero e de uma angustia quase mortal.

Só os amigos e familiares conheceram essa história e choraram a morte dele. Todas as vezes que passo no local do acidente lembro aquele dia. Daiane é minha amiga. Eu a acompanhei ao velório, chorei junto com ela, enxuguei as suas lágrimas e tentei confortá-la, mesmo sem saber o que dizer. Neste dia pequei, questionando a Deus porque aquilo aconteceu com ela, antes do casamento, porque eles não puderam viver juntos, ter os filhos que queriam e a vida que sonharam.

A estatística para a qual Sidney entrou é assustadora. Os números são altos, mas são apenas números. Eles não dizem quem eram as pessoas que morreram, o que elas planejaram para o futuro, quem chorou em seus túmulos e teve a vida marcada pela dor da suas mortes.

“As pessoas têm vida. Têm história. São mais do que estatísticas. Quando você escrever sobre mortes em acidentes ou qualquer tipo de tragédia lembre disso, ouça os familiares, amigos, tente humanizar essa perda para que os leitores, por alguns instantes compreendam que não foram 5, 6, 10 ou 100 mortes, mas, sim, 5,6,10 ou 100 pessoas que deixaram para traz sonhos, planos e um vazio que nunca mais vai ser preenchido nas vidas de outras pessoas”.

Ouvi esse conselho no começo da minha carreira, de um dos jornalistas mais inteligentes e humanos que já conheci em toda a minha atividade profissional. Uma figura ímpar, correspondente do Estadão nas terras de Alagoas, responsável por coberturas históricas na cidade. Calado. Voador. Sempre atrasado. Pauteiro de primeira ordem. Parecia desligado de tudo, de repente gritava: eu tenho a manchete do jornal e era mesmo!

Nunca esqueci essas palavras sábias do meu colega com que tive a honra de dividir pautas maravilhosas e manchetar jornal sucessivas vezes. Um jornalista romântico, assim como os meus amigos dizem que sou. E aguçado, repetia sempre: “jornalista não é padre para ouvir confissão e ficar queito”.

Não podemos nos calar! É preciso humanizar o trânsito! É preciso dizer um basta aos números frios divulgados como balanço a cada feriado, final de semana prolongado, ou em dias comuns. O trânsito no Brasil mata mais do que o crime organizado, mais do que as guerras civis em países violentos, e, mais do que a sociedade em geral pode entender.

Acredito que as principais mudanças acontecem dentro de nós mesmos. Paulo Freire, educador renomado, dizia que o aprendizado vem acompanhado por uma mudança comportamental. Parafraseando ele, creio que devemos aprender a lidar melhor com o trânsito. Resgatar o respeito pela vida dos outros. Correr menos, ser mais tolerantes, tentar ver os outros indivíduos como pessoas cheias de necessidades e sonhos assim como nós mesmos.

Paralelamente, o Poder Público não pode mais ignorar a guerra do trânsito, agravada ainda mais pela falta de investimento em transporte público. Com uma frota de veículos em plena ascensão é preciso encontrar o caminho do equilíbrio, que passa por mudanças de comportamento e investimento do governo em transporte público eficiente e de qualidade.

Só assim vamos evitar que os sonhos de jovens casais seja destruído, que pais e mães deixem os filhos sozinhos, que as crianças morram. Enfim, que pessoas, gente como eu e você percam a vida com tanta banalidade. Por que não há  nada pior do que esperar por alguém que nunca mais vai voltar...

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