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Consciência não tem cor, mas a minha é negra e me ensinou desde cedo a lutar e resistir

Por Sandra Pereira | 19/11/2017

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Arquivo PessoalJornalista Sandra Pereira usa a experiência pessoal para alertar as dificuldades de ser uma criança negra 

Consciência não tem cor. Mas, a verdade é que se você ainda não tomou consciência de que a vida de uma pessoa negra é muito mais difícil, por causa da cor da sua pele, precisa fazer isso o quanto antes para não correr o risco de acreditar no conto de fadas que diz que no Brasil o preconceito racial não existe. Somos filhos de uma nação, que muito mais do que outras misturou povos, raças, culturas e mesmo assim cultivamos o preconceito que extravasa em forma de estatísticas impossíveis de serem negadas ou ignoradas.

Numa das primeiras aulas do curso de jornalismo na Universidade Federal de Alagoas, a professora de Sociologia alertou que eu fazia parte dos 0,2% de mulheres negras do Brasil que conseguiam cursar universidade federal. Primeiro me senti feliz, depois privilegiada e no final chocada. Andava nas ruas olhando as mulheres negras e pensando em como a vida era ruim para nós. Deprimi. Em seguida decidi agir assim e o faço até hoje. Toda vez que converso com meninas, as negras em especial, repito que devem estudar muitoooo, aprender sobre todas as coisas, porque só a educação pode ajudá-las a vencer o preconceito.

Até aquela aula na faculdade eu não tinha consciência negra. Vivi toda uma vida de preconceito. Tive a infelicidade de frequentar a escola de um povoado cheio de gente branca, onde estudei nos primeiros anos, e era praticamente a única aluna negra. Acreditem. No interior de Alagoas, havia um povoado onde quase 100% das pessoas eram brancas e de olhos azuis. A escola mais perto da minha casa ficava lá. Hoje posso dizer sem medo: detestei cada segundo de vida naquele lugar onde fui diariamente oprimida, injustiçada e jamais contei isso a ninguém até crescer.

Eu, e outros poucos negros corajosos que desejavam estudar, comíamos o pão que o diabo amassou naquela “escola de brancos”. Éramos humilhados. Chamados de burros. Tudo era nossa culpa. Cansei de tomar castigo pelos outros. Até quando alguém pedia meu material, era eu que ficava de castigo unicamente por ter respondido que sim.Chorava todo dia. Voltava para casa escondida. Me sentia menor que lixo. Sabia que não me queriam ali e os outros se sentiam igual. Graças a Deus, mudei de escola na antiga 4ª série. Tinha que andar duas horas até lá, passava na frente da escola de brancos todo dia e pensava: “nunca mais entro ai”. Cumpro até hoje e quando passo em frente até hoje digo que ali foi o pior lugar onde estudei na vida.

A maioria das crianças negras não sobreviveu aos quatro anos na escola de brancos e deixou de estudar, inclusive meus primos. Felizmente, a nova escola compensou as dores anteriores. Os professores nos encorajavam, descobri os livros, a biblioteca e fundei “meu próprio mundo” onde ninguém sofria por causa da cor da sua pele. Meu mundo era meio Sofia e ainda é.

Muitos pais não sabem, mas, ser uma criança negra na escola é uma luta diária. É por isso que os negros detém o maior índice de analfabetismo, evasão escolar, taxa de homicídio na juventude, gravidez precoce, e são mais que a metade da população carcerária.

Negros ganham menos, tem jornadas de trabalho maiores e menos oportunidade de ocupar cargos de chefia. Negros encontram mais dificuldade em cursar faculdade, no caso das mulheres negras o problema é ainda maior.

Quando eu assisti O Auto da Compadecida do genial Ariano Suassuna, minha alma sorriu ao ver Jesus retratado como um negro. Meu primeiro pensamento foi: esse filme devia ter sido lançado quando eu era criança. Eu ia ri muito naquela escola de gente branca, onde a gente rezava todo dia, quando eles vissem Jesus negro.

Você pode fechar os olhos à realidade do preconceito racial. Escolher ignorar todas as estatísticas que mostram o contrário. Pode ignorar o preconceito disfarçado nas piadas de mau gosto. Escancarado nas propagandas de grandes marcas, que depois vem à público pedir desculpas pelo “erro”. Você pode passar a vida se enganando. Pode não aceitar. Mas, a verdade é que se um negro passar correndo na rua todo mundo pensa logo que ele cometeu um crime.

As mulheres e meninas negras são as que mais sofrem abuso sexual. Até pouco tempo elas eram escravas sexuais. Vendidas como objetos. Só pra registrar, o Brasil foi o último país a abolir a escravidão.

Naquela escola de gente branca da minha infância, localizada há menos de 200 km da Serra da Barriga, e, do Quilombo dos Palmares, nunca me ensinaram sobre o negro Zumbi. Eu o conheci adolescente e o amei de imediato. Zumbi fez de Palmares um templo de liberdade para negros, brancos fugitivos, índios e mulheres. Lá todo mundo era igual, podia trabalhar, ter seu pedaço de terra e construir um lar para si e sua família.

Zumbi é herói nacional, não só de negros. Pregou igualdade e liberdade mostrando como deveria ser uma nação livre. Pra mim, 20 de novembro é dia de Zumbi. Todavia, para os negros tudo é mais difícil, a data poderia ser questionada e dai nasceu a Consciência Negra.

Mas, consciência não tem cor e quero terminar falando de amor, citando um negro brilhante, que orgulha negros e brancos; o eterno, Nelson Mandela : “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, ou por sua origem, ou sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se elas aprendem a odiar, podem ser ensinadas a amar, pois o amor chega mais naturalmente ao coração humano do que o seu oposto. A bondade humana é uma chama que pode ser oculta, jamais extinta”.

 

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